- O GRÃO DE BICO E A FARRUSCA

 


Quando criou o mundo, Deus trabalhou duramente durante seis dias e descansou no sétimo. No fim de seis dias, estava tão cansado que se esqueceu de um pormenor importante. Criou as pessoas a falarem e a perceberem-se entre si mas sem entenderem os animais mas criou estes a perceberem as pessoas, pelo menos nas coisas mais importantes.

Vocês percebem o ladrar dos cães ou o miar dos gatos? Não, pois não? Mas os vossos cães ou gatos, se forem ensinados, entendem tudo o que vocês lhes digam. “Senta-te!”, “Deita-te!”, “Dá a patinha!”, “Busca!”, são palavras a que eles obedecem depressa.

Esta pequena introdução à nossa história apenas teve como objetivo que vocês pensassem um pouco nisto e fizessem um pequeno esforço para tentarem perceber o que os vossos animais de estimação pretendem com os seus ladridos e miados.

 

O Grão de Bico era um cachorro simpático, cheio de um pelo castanho claro, quase amarelo, com uma cauda toda enroladinha que até parecia um ponto de interrogação.

O Grão de Bico não era muito forte, antes pelo contrário, porque não se alimentava muito bem e dormia muito mal instalado, onde calhava. Havia, até, quem lhe chamasse “vira latas” porque, com a fominha a apertar, agarrava-se às latas do lixo à procura de alguns restos de comida e, por vezes, acabava por as virar para procurar melhor.

O Grão de Bico quase que não saía daquele beco porque nas ruas vizinhas havia outros cães mais velhos e mais fortes que já lhe tinham dado umas valentes dentadas. Até alguns rapazes lhe tinham mandado umas pedradas que lhe fizeram doer muito.

Por isso, o melhor era ficar por ali pelo beco, que era mais sossegado e seguro, embora com pouca comida porque os moradores também eram pobres. Ainda por cima, tinha a concorrência de dois gatos que, quando o apanhavam distraído, o deixavam sem comida.

Um dia, ao acordar, nem queria acreditar no que via. À sua frente estava a cadelinha mais linda que algum dia vira. Pequenina, ainda mais pequena do que ele, com um pelo curto e preto mas tão brilhante que até fazia doer a vista. As orelhas não eram caídas como as dele, mas espetadinhas com uma mancha branca entre elas. E que limpinha ela estava!

Claro que o Grão de Bico viu logo que a cadelinha não pertencia àquela zona porque, não só estava limpa e bem cheirosa como era toda reboluda, sinal de que comia bem.

- Bom dia – disse o Grão de Bico – que andas por aqui a fazer?

- Bom dia - respondeu a cadelinha - não sei onde estou e queria ir para casa

- Sabes, eu só conheço este beco e não tenho casa, vivo mesmo aqui. Como te chamas? Eu sou o Grão de Bico. Nem sei porque me chamo assim, os rapazes da rua começaram a chamar-me assim e habituei-me.

- Tratam-me por Farrusca. Tu não tens casa?! Então, quem te dá de comer? Quem te lava? Onde dormes?

A cadelinha Farrusca estava mesmo admirada, embora já tivesse percebido que devia haver algum problema com o Grão de Bico, pois aquele pelo, que devia ser bonito, estava muito sujo e até cheirava um bocado mal. Mas era engraçado, o Grão de Bico.

- Não, não tenho casa. Comer? Então, vou aos caixotes do lixo. Há sempre estos de comida. Mas tenho de me apressar porque andam por aí dois gatarrões que comem tudo se me atraso. Lavar?  O que é isso? As lavagens são com água da chuva quando não me consigo escapar para dentro de alguma porta, E quando isso acontece, durmo aqui mesmo – respondeu o Grão de Bico, com a maior naturalidade.

- Que horror! Quero ir já para casa!

- Mas, onde moras? – perguntou o Grão de Bico, emocionado com a aflição daquela cadelinha tão simpática.

- Não sei bem, mas é ao pé dum grande jardim, onde me costumam levar a passear todos os dias.

- Mas, então, como vieste aqui parar?

E a cadelinha Farrusca contou o que lhe havia acontecido.

Naquela manhã, saíra com a dona pequenina (tinha 4 donos, dois grandes e dois pequeninos) para o passeio do costume, depois de comer as sopinhas de leite.

Quando já estavam perto do jardim, viu um grande cão vir a correr para ela. A Farrusca assustou-se e gritou, o cãozarrão gritou, a dona pequenina assustou-se também e fugiu. Quando se viu sozinha, a Farrusca decidiu que não devia ser bom para a sua saúde ficar por ali e fugiu também, mas com tanto azar que nunca mais viu a dona. Assim, foi andando até chegar ali onde o tinha encontrado a dormir e lhe tinha parecido que não lhe ia fazer mal pois tinha um ar simpático, embora pobrezinho.

- O pior – terminou a Farrusca – é que tenho muita fome.

- O mais que posso fazer, é ir procurar nos caixotes. Tens é que te sujeitar a restos de comida – sugeriu o Grão de Bico.

- Tenho tanta fome que como tudo o que me trouxeres – garantiu a cadelinha

- Não saias daqui enquanto procuro. Não me vou demorar.

E lá foi o Grão de Bico vasculhar nos caixotes, à procura de comida para a Farrusca.

A ementa era a do costume. Restos de arroz, de batatas, algumas couves cozidas, uma ou outra espinha de peixe frito com uns restinhos agarrados. Mas, o que era aquilo? Um grande osso, com tanta carne agarrada? Nunca o Grão de Bico tinha visto tanta comida boa na sua vida!

Por um momento, ainda pensou em comer ali mesmo e levar para a Farrusca o osso e aqueles pedacitos de batatas e arroz. Mas não. A sua palavra era mais importante e a cadelinha devia estar a sofrer muito com a fome, enquanto ele já estava habituado a comer aqueles restinhos. Além disso, era muito mais fácil levar o osso com a carne do que os pedaços de batatas e arroz, não era?

E assim, o Grão de Bico comeu os restinhos e levou o osso com a carne. Pelo menos, ficou com o sabor na boca, o que já não era mau!

- Obrigado, Grão de Bico! Não sei como te agradecer!

- Deixa lá. Dizias há bocado que vives com os teus donos. E como são eles?

- São muito bons para mim. Dão-me de comer, tenho uma casinha só para mim. Dia sim, dia não, sou toda lavadinha e levam-me a passear todos os dias.

- Quando tens fome, como é que lhes pedes?

- Não preciso de lhes pedir. Eles dão-me a paparoca duas vezes por dia. Também, se precisasse de pedir, eles não percebiam. Já estou farta de tentar ensiná-los mas não me percebem. Não entendo, porque eles ensinaram-me a fazer algumas coisas e eu aprendi logo!

- Oh! – admirava-se o Grão de Bico

Depois de comer, a Farrusca sentiu tanto sono que, apesar do frio, acabou por adormecer, agarradinha ao Grão de Bico.

 

E foi neste estado que a Filipa e o Rodrigo os foram encontrar algum tempo depois. Os dois meninos já desesperavam de encontrar a sua Farrusca.

- Farrusca! Farrusca! – gritaram eles

Os dois animais acordaram. A Farrusca saltava de alegria, ora de volta da Filipa, ora de volta do Rodrigo.

Por sua vez, o Grão de Bico ficou muito quieto. Por um lado, estava contente pela alegria da Farrusca em ter encontrado os seus donos mas, por outro lado, sentia tristeza porque estava a simpatizar muito com a cadelinha. Pela primeira vez, tinha tido companhia e não tinha sido desprezado, como acontecia com os outros cães do bairro.

 

- Adeus, Grão de Bico, nunca mais te esquecerei. Gostava que pudesses vir comigo!

- Adeus, Farrusca. Pertencemos a mundos diferentes. Oxalá que sejas muito feliz com os teus donos e amigos.

A Filipa e o Rodrigo, que não percebiam nada do que a Farrusca lhes dizia, desta vez parece que compreenderam aquela linguagem, feita de latidos e olharam um para o outro.

- Achas que o pai e a mãe se importariam? – perguntou ela, a mais novita

- Penso que não. O cãozito é muito bonito e parecem dar-se muito bem – respondeu o mais velho, todo importante – eu falarei com eles.

 

E, de facto, os pais da Filipa e do Rodrigo não se importaram de ficam com o Grão de Bico.

E, assim, ficaram todos a dar-se muito bem e, passado algum tempo, nasceram muitos Grãozinhos de Bico e Farrusquinhas!

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