- A GATA JANOTA
A gata Janota era um daqueles felinos da classe baixa dos gatos, isto é, não era de raça nobre como os seus irmãos persas ou siameses, vocês conhecem, aqueles gatos muito grandes e felpudos. Não, a gata Janota era uma gata cinzenta com listas mais escuras, igual a milhares de outros gatos que vemos por aí na rua.
A
Janota vivia numa pequena cidade, junto a uma serra bastante alta e com muito
arvoredo.
Vivia
sozinha com a sua dona, uma senhora que pouco tempo estava em casa porque
passava o dia a trabalhar no outro lado da cidade, pelo que nem sequer tinha
tempo de vir almoçar a casa.
Bem,
sozinha, sozinha, não era verdade. Havia também uns peixinhos que estavam num
pequeno aquário, em cima duma estante. Eram peixinhos pequeninos, uns vermelhos,
outros amarelos, outros, ainda, pretos. Para a Janota, era um verdadeiro
tormento…aqueles peixinhos todos ali e ela sem lhes poder chegar…Como sabem, os
gatos gostam muito de peixe.
Mas,
se a Janota tivesse sempre a barriguinha cheia, talvez não ligasse muito aos
peixinhos. O problema era que a Janota andava muito esfomeada e isso fazia-a
entrar em desespero. A razão era que a dona não lhe deixava comida quando saía
de manhã e, então, a Janota só comia quando a dona chegava à noite. Ela bem
miava mas ninguém lhe ligava.
Assim,
os peixinhos eram uma tentação, embora fossem muito pequeninos. A Janota também
sabia que procedia mal porque a dona adorava aqueles peixes. Mas a fome era
tanta…
Um
dia, em que já não aguentava mais, resolveu-se mesmo a papar os peixes. Saltou
para cima da estante e vá de tentar apanhar os coitados dos peixinhos. Porém, o
problema era bem mais complicado do que parecia à primeira vista. Com as
patitas, não conseguia apanhar nenhum porque eles, pequeninos, fugiam muito
depressa. Meter lá o focinho, nem pensar, porque a Janota, como todos os gatos
que se prezam, tinha muito medo da água. Além disso, os peixes andavam muito lá
pelo fundo do aquário.
Estava
a gata nestas tentativas quando a dona entrou na sala, no regresso do trabalho-
-
Janota, sua marota! Venha já aqui! – gritou a dona, muito indignada
A
Janota nem teve tempo de fugir. Zás! Apanhou logo duas ou três palmadas no
lombo, que a deixaram toda derreada.
- Para
castigo, hoje não comes!
- Ora
esta! – disse a gata para os seus bigodes – então, ela não me dade comer
durante todo o dia e, ainda por cima, me castiga assim?!
A
Janota não distinguia muito o bem do mal, apenas seguia os seus instintos de
raça que lhe diziam que peixe é bom para comida de gatos. Mas, a verdade é que
a sua dona também não percebia que os animais, tal como ela, necessitam
igualmente de se alimentar. Sendo ela a responsável pela gata, tinha a
obrigação de lhe deixar a comida suficiente quando saía de manhã.
Revoltada
com esta situação, a Janota aproveitou o facto da porta da rua ainda estar
aberta para fugir.
Achou
que a melhor solução seria a de fugir para a serra, pois ali talvez estivesse a
salvo dos humanos, que tão mal a tinham tratado.
Entretanto,
caíra a noite e a Janota começou a não gostar muito da escuridão, embora
pudesse ver de noite. Mas aquela era uma escuridão diferente da que estava
habituada. Havia muitos ruídos estranhos e sombras que se moviam perto dela. E
comida..nada!
De
repente, ouviu uma restolhada atrás de si e desatou a fugir sem sequer olhar
para trás, tanto mais que o barulho continuava. Achou que talvez estivesse
melhor em cima duma árvore e assim fez.
Lá de
cima, mirou bem os arredores, em especial por debaixo da árvore. Lá estavam
duas ou três figuras que a observavam com olhos muito brilhantes. Era apenas
este brilho dos olhos que os distinguia dos cães lá da sua rua e de quem ela
tinha muito medo.
A
Janota não sabia, mas estava a ser cercada por lobos que, tal como ela, estavam
esfomeados. Era a lei da Natureza, a lei da sobrevivência. Enquanto que ela
tentava comer os peixinhos, que eram mais fracos, os lobos tentavam atirar-se a
ela, que era mais fraca que eles.
Mas a
Janota não sabia nada disto. O que ela sabia, era que estava em risco de ser
comida, tinha frio e continuava com fome!
Já
começava a estar arrependida de ter fugido de casa da dona. Afinal, o mundo cá
por fora era pior para as gatas como ela.
O
tempo foi passando e os lobos não arredavam pé, para desespero da Janota.
Subitamente,
ouviu um pequeno ruído junto dela. A Janota pensou que tinha chegado ao fim dos
seus dias e que aquela história das sete vidas dos gatos era mesmo uma história
e não devia ser verdade ou, então, ela ia perdê-las todas ao mesmo tempo porque
já não tinha forças para fugir.
- Não
tenhas medo, que não te faço mal – sussurrou-lhe uma voz junto das orelhas.
- Quem
és tu? – tartamudeou a Janota, transida de medo
- Sou
o teu primo lince e chamo-me Malcata. Ainda somos parentes afastados mas eu sou
maior que tu, vivo na serra e, por isso, sou obrigado a viver de forma
diferente de ti.
-
Também comes peixes?
- É
difícil apanhar peixes, alimento-me mais de outras coisas, mesmo de carne.
-
Carne? Então, também comes gatos! – Exclamou, assustada, a Janota
Não,
não como gatos porque, como te disse, ainda somos parentes. Mas – perguntou o
lince Malcata, depois de uma pequena pausa – como vieste aqui parar?
A
Janota contou-lhe, então, a sua odisseia em pormenor, acabando por confessar
que já estava muito arrependida de ter fugido de casa da dona.
-
Também acho que fizeste mal – comentou o lince Malcata – porque viveste sempre
presa em casa e não estás preparada para andar na serra. Aqui, apenas
sobrevivem os mais fortes e os mais experientes. Mas nem todos os humanos são
ruins. Durante muitos anos mataram irmãos meus, de tal maneira que hoje somos
poucos. Decidiram, então proteger-nos para que não acabássemos de vez, embora
ainda haja alguns humanos que não tenham essa boa ideia. Por isso, tenho de
andar sempre com muita cautela. Assim, o melhor é voltares para casa.
- Está
bem, mas como é que eu saio daqui? Aqueles bichos, lá em baixo, estão mesmo à
minha espera!
- Não
te preocupes, que eu trato deles – sossegou-a o lince Malcata.
E o
lince deu um salto enorme, indo cair mesmo em cima de um dos lobos. Estes
assustaram-se tanto que começaram a fugir a toda a velocidade e em breve apenas
se ouvia o barulho dos ramos das árvores, embalados pelo vento.
-
Pronto, podes descer, já não há perigo.
A
Janota desceu, então, da árvore e, orientada pelo seu primo lince, foi andando
pela serra até à entrada da pequena cidade onde vivia com a sua dona..
A
partir daqui, é melhor ires sozinha porque já não te perdes e começa a não ser
seguro para mim.
-
Obrigado, primo, não sei como te agradecer.
- Não
me agradeças. A família tem que se ajudar. Mas não tornes a fugir para a serra
porque podes não me encontrar para te defender. Adeus.
O dia
estava a nascer quando a gata Janota chegou junto da porta da casa da dona.
Estava tudo fechado e a gata não teve outro remédio senão deitar-se junto à
porta, esperando que a dona saísse para o trabalho e meditando em tudo o que
lhe tinha acontecido naquela noite.
-
Janota, sua marota! Onde é que te meteste? – Exclamou a dona
A
Janota não encontrou outra maneira de manifestar a sua alegria que não fosse a
de se roçar pelas pernas da dona.
- Como
tu estás gelada! E, agora reparo melhor, também estás muito magra. Precisas de
comer mais.
A
ausência da Janota tinha feito com que a dona a olhasse com outros olhos, isto
é, que se apercebesse da falta que ela lhe fazia e, portanto, finalmente
reparara que a gata estava muito magra.
E,
assim, a gata Janota passou a ter a sua comidinha sempre que a dona saía de
manhã e quando chegava à noite. E também muitas meiguices da dona quando ela
estava em casa.
E os
peixes? Perguntarão vocês
Bom,
bem alimentada e mimada, a Janota nunca mais pensou nos peixinhos como seu
alimento mas apenas como mais uns ocupantes da casa, como ela e a dona.
E para
que a felicidade da Janota fosse completa, por vezes apareciam duas crianças,
parentes da dona, que se fartavam de brincar com ela. Eram o Rodrigo e a
Filipa, embora esta última lhe fizesse umas maldades, de vez em quando.
Puxava-lhe o rabo e os bigodes mas ela não se importava porque sabia que era
tudo na brincadeira.

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