- A TARTARUGA NITA

 

O Rodrigo, irmão da Filipa, é um garoto todo entusiasmado pelas coisas da Natureza. Apesar dos seus nove anos, o Rodrigo perde-se por tudo quanto seja bichos e plantas.

Como exemplo, refira-se que a escola fica a duzentos ou trezentos metros da sua casa. Pois, o Rodrigo demora mais de 15 minutos para percorrer essa distância! E porquê? Porque, a cada passo, detém-se a observar aquele bichinho ou esta planta, colhe uma flor para a mamã, etc.

Aqui há uns tempos, apareceu em casa com uma pequena tartaruga morta! Sim, senhores, morta, mortinha da silva!



Claro que o pai não deu por isso porque, caso contrário, ia logo para o lixo. Mas, como ele e a irmã fazem o que querem da mãe, é evidente que a tartaruga andou lá por casa uns dias.

O curioso é que todos conseguiram guardar segredo disto do papá. Até a Filipa, rabina como é, nos seus três anos, já aprendeu a ser dissimulada!

Penso que à mamã lhe começou a custar andar a esconder do papá a existência da tartaruga morta e, talvez por isso, um dia foram ao supermercado e levou o papá à casa dos animais. Com grandes rodeios foi convencendo-o a comprarem uma tartaruga. Viva, é claro!

Porque os meninos não falavam noutra coisa…porque aqueles bichinhos não davam trabalho algum, etc., etc…. Assim, ela foi desfiando vários argumentos. Claro que o papá não colocou nenhuns obstáculos e lá levaram a tartaruga e a respetiva banheira.

Só quando chegaram a casa é que a mamã confessou que o Rodrigo andava com uma tartaruga morta. Trinta segundos depois, o bicho estava no lixo, o que não custou muito às crianças porque tinham agora um exemplar vivo.

Tratou-se, depois, de preparar a banheira e aí é que foram elas!

Tanta pedra e tanta concha lá meteram, que a desgraçada quase que não se podia mexer. Para cúmulo, a mamã resolveu colar uma tartaruga de plástico no alto da pequena rampa de acesso à comida.

- Ah! É para ela não se sentir tão só – desculpou-se a mamã

Como se um boneco de plástico enganasse a tartaruga! Era como se vos pusessem um boneco ao vosso lado na mesa. Vocês acham que seriam enganados? Ainda se fosse uma boa imitação mas aquela tartaruga de plástico até um chapéu tinha na cabeça!

Mas, enfim, lá ficou uma tartaruga colada e mais outra, viva, no meio da água. Faltava dar-lhe um nome e o Rodrigo entendeu que deveria chamar-lhe Nita porque era um diminutivo de Bonita.

A Nita foi colocada num local nobre da cozinha, ali ao lado do micro ondas, mesmo junto da mesa de comer.

Nos primeiros dias, a Nita foi a estrela lá de casa para os miúdos. Ambos ficavam sentados a adorá-la, de tal forma que a pequena tartaruga mal punha a cabeça de fora da carapaça, com medo daquelas mãozitas que mais pareciam garras. Pareciam garras para ela porque a intenção das crianças era a melhor. Apenas queria ver-lhe a cabeça, vê-la a andar, a descer as pedrinhas e a concha e, sobretudo, a comer.

Mas a Nita tinha tanto medo que só ia comer quando verificava que não andava ninguém por ali perto.

Até que começou a familiarizar-se com a presença da mãe dos garotos porque era ela que lhe lavava a banheira e lhe mudava a água. E como ela gostava de se sentir lavadinha naquela água tão limpa!

A Nita já conhecia tão bem a mãe do Rodrigo e da Filipa que, mal a pressentia por perto, levantava logo aquela cabecita verde para fazer a habilidade que tinha aprendido: comer diretamente da mão da senhora. O hábito era já tãoi grande que a tartaruguinha, a “tutuga”, como lhe chamava a Filipa, se convenceu que ninguém lhe queria fazer mal. A partir daí, nunca mais escondeu a cabeça dentro da carapaça.

Já conhecia tão bem as crianças, talvez pelo olfato, que não escondia a cabeça, mesmo quando lhe pegavam com a mão e a encostavam às suas caritas. Mas só com as crianças! Se fosse um adulto (exceto a mãe das crianças, claro), logo se encolhia toda.

Fascinantes, os segredos do mundo animal!

Depressa, também a Nita aprendeu onde era o sítio da comida. Logo que sentia alguém junto dela com o frasco da comida na mão, depois de aberto, apressava-se a correr, se é que podemos chamar de “correr” àquele andar desajeitado, para a pequena concavidade onde se deitava a comida e que ficava no alto da tal rampa onde estava a companheira de plástico, bem como uma palmeira feita do mesmo material.

Às tantas, a mãe do Rodrigo começou a achar que a Nita era muito porcalhona porque a água estava sempre amarela e tinha de ser mudada muitas vezes, mais do que o normal.

Até que descobriu o que se passava na realidade.

É que, a partir de certa altura, parecia que ninguém ligava à tartaruga, talvez porque tivesse deixado de ser novidade. Pelo menos, seria o que cada um pensava dos outros mas a verdade era outra.

Porque todos pensavam isso, também todos tratavam de lhe dar comida, com receio que a Nita passasse fome. A mãe do Rodrigo dava-lhe a dose normal diária. As crianças deviam dar várias vezes ao dia e até o pai delas, quando chegava, à hora de almoço, lhe punha comida. Resultado: a Nita começou a engordar e a estragar comida porque já não conseguia comer mais e o alimento dissolvia-se na água, deixando aquela cor amarela.

Tão gorda estava a tartaruga que já não sei se lhe chame tartaruguinha ou tartarugona!

Tão gorda estava que a carapaça já lhe estava pequena. Duvido, até, que ela conseguisse meter a cabeça lá dentro!

Mas, o mais engraçado é que, para ir ao alto da rampa buscar a comida, subia tão devagarinho, tão devagarinho que quase que não se notava o andar dela.

A mãe dos meninos decidiu, então, que a Nita tinha que passar a fazer dieta e retirou o frasco do comer do alcance das crianças, colocando-o lá bem no alto duma prateleira.

Mas as melhoras não eram muito visíveis porque, embora o Rodrigo obedecesse e não desse comer à Nita, a Filipa empoleirava-se na cadeira e conseguia chegar ao frasquinho. Por sua vez, o pai chega à hora do almoço, via o comedouro vazio e…mais comer para a Nita!

Até que a decisão foi radical. Só a mamã podia dar de comer à Nita e o frasco foi ainda para mais alto, onde a Filipa não lhe pudesse chegar.

E foi esta a maneira de fazer voltar a Nita à sua elegância anterior.

Não era porque a família não gostasse mais ou menos da tartaruga por ser gorda mas porque também aos animais faz muito mal o excesso de gordura.

Os animais, tal como os humanos, devem comer para viverem e não viverem para comer!

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